domingo, 28 de abril de 2013

Inside Job (2010): documentário recomendado


Para os interessados em economia, mercado financeiro internacional e curiosos em geral, recomendo o filme Inside Job (2010). Documentário de Charles H. Ferguson e vencedor do Oscar 2010 de melhor documentário, o filme trata da crise econômica de 2008 de suas prováveis causas até suas consequências diretas e indiretas. Três são os pontos positivos de destaque do filme: primeiro, apresenta de modo relativamente claro a parte técnica do problema; os CDOs com base principalmente nas hipotecas imobiliárias. Depois, apresenta entrevista com autoridades internacionais importantes como Cristine Lagarde (atual presidente do FMI) e Dominique Strauss-Kahn (presidente do FMI à altura da crise). Por fim, apresenta um hipótese mais profunda e sútil para o desencadeamento da crise relacionada às escolas e professores de economia das universidades americanas.
Como ponto negativo, faltam as entrevistas de muitas pessoas que, segundo sugere o filme, foram os principais “causadores” da crise.
Assiste-se ao filme completo com legendas em português abaixo.


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sábado, 23 de março de 2013

Lógica Modal Para Filosofia da Religião

Lee Walters                                                            
University of Oxford
Trad. Fernando Furtado

Lógicas Modais
K: (P →Q) → (PQ)
T:  P → P                                     Alternativamente, P → à P
B: àP → P                                    Alternativamente, P →à P
4:  àà P à P                                Alternativamente, P P
5: à P → P                                Alternativamente, à P →à P   

  •  K e T são incontroversos para modalidade metafísica e juntos resultam na lógica modal mais fraca para qualquer interesse metafísico, KT.
  • S5 é a lógica modal mais forte para os interesses metafísicos e é caracterizado por KT5Este sistema implica B e 4.
  •  Dois sistemas intermediários estão entre KT e S5, são S4, que é resultante de KT4, e B, resultante de KTB. S4 não implica B e vice-versa.


Na semântica dos mundos possíveis, ‘à P’ é verdadeira sse P é verdadeira em algum mundo acessível e ‘P’ é verdadeira sse P é verdadeira em todos os mundos acessíveis. Se a relação de acessibilidade é reflexiva, então T é estabelecido; se ela é simétrica, então B é estabelecido; e se é transitiva, 4 é estabelecido. Em S5 a relação de acessibilidade pode ser ignorada pois ela é reflexiva, simétrica e transitiva. S4 é o sistema no qual a relação de acessibilidade é transitiva. B é o sistema no qual a relação de acessibilidade é simétrica. Portanto, S4 e B são considerados mais fracos que S5 de modos diferentes.

O Argumento Ontológico Modal

O argumento modal procura estabelecer a existência de Deus a partir de duas premissas.
Primeira, a possibilidade da existência de Deus e depois algumas afirmações que se seguem da descrição de Deus como um ser perfeito. Hartstone e Kane (1984) entendem esta segunda afirmação como necessariamente se Deus existe, então existe necessariamente (DD). Ver também a discussões sobre Anselmo por Leftow (2004) onde ele nota que um argumento que apresenta estas duas premissas é válido em S5.

1.  (D → D)                                       Premissa
2.  à D                                                    Premissa
3.  ((D D)) → (à D → à D)      Teorema modal válido em T
4. à D → à D                                       1,3 Modus Ponens
5. à D                                                   2,4 Modus Ponens
6. à  D D                                      Axioma 5.
7.  D                                                     5,6 Modus Ponens
8. D                                                         7, T.


(8) diz que Deus existe e (7) que Deus necessariamente existe.

Como Kane (1984) nota, a beleza do argumento ontológico modal é que ele pega naquilo que os críticos do argumento ontológico pensam que é sua própria conclusão, nomeadamente (1), e usa como premissa, sem combinar com a premissa Deus existe, recorrendo apenas à mera possibilidade da existência de Deus.     
Um contraexemplo a S5 e S4?
S5 é, de todo modo, controverso. Talvez o mais forte desafio a S5, de Salmon (1989), questione a validade de S4 e, portanto, a transitividade da relação de acessibilidade.
Este desafio resulta da afirmação intuitiva que a origem de objetos materiais é um pouco flexível. Por exemplo, uma estatua S originalmente feita de uma porção de matéria m, não poderia ter sido feita de um pedaço de matéria m* que não tivesse pelo menos 90% de m. Mas se S tivesse sido feita de m*, então ela poderia ter sido feita de um pedaço de matéria m** que apenas tivesse 90% de m*. E m** não precisa ter tido 90% de m. Assim, embora S não pudesse ter sido feita de m**, é possível que ela pudesse ter sido feita de m**. Isto é, na circunstância possível em que S foi feita de m*, ela poderia ter sido feita de m**. Se aceitarmos este cenário, aceitamos a falsidade de S4: embora seja possivelmente possível que S fosse feita de m**, não é possível que S seja feita de m**.     
               
O Argumento Ontológico Modal sem S5

Se aceitarmos este contraexemplo a S5, então o argumento ontológico modal acima é invalido. Kane (1984), todavia, mostrou que há um argumento com as premissas acima que é valido em B.
9.   (D D)                                        Premissa
10.  à D                                                     Premissa
11.  ( (D D)) → (à D → à D)      Teorema modal válido em T
12. à D → à D                                        9, 11, Modus Ponens
13. à D                                                    10, 12, Modus Ponens
14. à D D                                            B
15. D                                                         5, 6, Modus Ponens
16. D D                                              9, T
17. D                                                     15 ,16 Modus Ponens

Portanto, temos aqui um argumento ontológico modal que mesmo quem rejeita S4/S5 pode aceita­r. Mas o que acontece se também aceitarmos à ­~D?

Uma Inferência Modal Inválida

Possibilidades não aglomeram. Isto é, de àP e àQ não se segue à(P˄Q). Nos termos dos mundos possíveis, por haver um mundo onde P e um mundo onde Q não que dizer que haja um mundo onde (P˄Q). Para ver isto, tome uma proposição contingente qualquer P. Pela definição de contingente temos àP e à~P, mas, claro, não temos à(P˄Q).
Uma inferência invalida similar está no domínio temporal. Se ‘P’ é verdadeira em algum momento do tempo e ‘Q’ é verdadeira em algum momento do tempo, não se segue daqui que ‘P˄Q’ são verdadeiras ao mesmo tempo. (Expresso isto em termos de frases e não como proposições, como no modo padrão de exibição, proposições não mudam o valor de verdade e, portanto, se são verdadeira em algum momento do tempo, são verdadeiras em todos).
Assim, do que fato de que é possível que a não exista e de que é possível que b não exista, não se segue que é possível nem que a nem b exista.

Leituras Adicionais

Kane, R. 1984: Modal Ontological Argument. Mind 93: 336-350.

Leftow, B. “The Ontological Argument”, in The Oxford Handbook of Philosophy of Religion, edited by William Wainwright (OUP: 2004).

Salmon, N. 1989: The Logic of What Might Have Been. The Philosophical Review 98: 3–34.

Sobel, J.H. 2004: Logic and Theism. Cambridge: Cambridge University Press.

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segunda-feira, 18 de março de 2013

Seção: Argumento Ontológico a Favor da Existência de Deus

Acabo de publicar uma breve seção com o Argumento Ontológico na versão modal como originalmente apresentado por Alvin Plantinga em seu The Nature of Necessity. Logo em seguida postei um vídeo com uma formulação mais simplificada do argumento, bastante clara e com legendas em português. Por fim, um vídeo do mesmo autor, também com legendas em português, com as respostas teístas mais comuns às objeções (algumas) ao argumento.

Este conteúdo completo é uma boa introdução ao assunto. 
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domingo, 17 de março de 2013

Argumento Ontológico - Parte 3


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Argumento Ontológico - Parte 2


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Argumento Ontológico (Plantinga)


Suponhamos 1) para fins de redução ao absurdo:
1) Deus não existe no mundo atual. (Suposição)
2) Para qualquer mundo W e qualquer mundo W' e qualquer objeto x, se x existe em W e x não existe em W', então o perfeição de x em W excede a perfeição de x em W'.
3) É possível que Deus exista.
4) Há um mundo possível W tal que Deus existe em W. (de 3)
5) Deus existe em W e Deus não existe no mundo atual. (de 1 e 4)
6) Se Deus existe em W e Deus não existe no mundo atual, então a perfeição de Deus em W excede a perfeição de Deus no mundo atual. (de 2)
7) A perfeição de Deus em W excede a perfeição de Deus no mundo atual. (de 5 e 6)
8) Há um ser possível x e mundo W tal que a perfeição de x em W excede a perfeição de Deus na atualidade. (de 7)
9) É possível que haja um ser mais perfeito do que Deus. (8)
10) Portanto, é possível que haja um ser mais perfeito que o ser do qual não é possível que um ser mais perfeito exista. (de 9, pela definição de Deus)
Nossa suposição no passo 1), portanto, com a ajuda das premissas expressas por 2) e 3), implica uma afirmação falsa.
Pois certamente,
11) Não é possível que haja um ser mais perfeito que o ser do qual não é possível que um ser mais perfeito exista.
Consequentemente, o passo 1) tem de ser falso e a existência de Deus está provada.
Por Alvin Plantinga em The Nature of Necessity, p.202.
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quinta-feira, 21 de julho de 2011

RESISTÊNCIA RACIONAL A COGÊNCIA DE ARGUMENTOS

C

ertamente já lhe ocorreu de perante um argumento não ser capaz de refutá-lo ou de aceitar a sua conclusão. Perante o argumento de um especialista, um corretor de ações, por exemplo, é comum sermos incapazes de refutar seu argumento. Não conhecemos a área – às vezes mal compreendemos o que está em causa – e, por isso, somos incapazes de refutar o argumento. Nessa circunstância aceitamos ou rejeitamos conclusões de argumentos segundo normas muito similares às que regulam o testemunho e não ficamos desconfortáveis – racionalmente – caso não aceitemos a conclusão. Um caso mais complicado é quando o argumentador e seu interlocutor estão em situação de paridade epistêmica. Quando há paridade epistêmica e estamos perante um argumento que reconhecemos ser cogente e não somos capazes nem de refutar o argumento nem de aceitar a conclusão, ficamos em uma situação aparentemente irracional e sentimo-nos desconfortáveis com isto. Será mesmo que em todos os casos em que reconhecemos a cogência de um argumento e não somos capazes de refutá-lo e não aceitamos a conclusão a que ele conduz estamos agindo irracionalmente? Esta questão será trabalhada ao longo de todo esse ensaio. Uma célebre passagem de An Enquiry Concerning the Human Understanding de David Hume acerca dos argumentos de Berkeley ilustra bem essa questão

they admit of no answer and produce no conviction. Their only effect is to cause that momentary amazement and irresolution and confusion, which is the result of skepticism.” (Séc. XVII, Parte I, nota 1)

Para Hume os argumentos de Berkeley são típicos casos de argumentos que não se pode refutar ou aceitar. Ao longo desse ensaio vou procurar formular critérios que digam sob quais circunstâncias é legítimo nem refutar nem aceitar um argumento cogente e, ao mesmo tempo, discutir as características de argumentos perante aos quais parece legítimo agir desta maneira.

A motivação deste ensaio é, pelo menos em parte, responder ao artigo de Jonathan E. Adler publicado em 2009 no Journal of Philosophy intitulado “Resisting The Force of Argument”. Nesse artigo Adler põe em causa o conceito de cogência tentando mostrar que ele não é suficiente para regular a argumentação, ou seja, mesmo que um argumento seja cogente e que reconheçamos sua cogência, ainda assim, sob certas circunstâncias estamos justificados em rejeitar a sua conclusão. Aqui eu aceito a tese central de Adler – a cogência tal como comumente definida é insuficiente para regular a argumentação – e discordo de vários aspectos de pormenor. Vou argumentar que o conjunto de crenças prévias do interlocutor é relevante para aceitação ou rejeição da conclusão de um argumento. E um argumento que colida com as crenças anteriores do agente relevante terá que apresentar algumas características que, caso não sejam satisfeitas, liberam o interlocutor da obrigação de refutar ou aceitar o argumento.

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